PP fecha fileiras para defender Marcelo Paulart após fala sobre “compra de votos”
Em sessão marcada por justificativas confusas e apelos à “liberdade de expressão”, vereadores progressistas buscam blindar líder de governo; presidente da Câmara segue regimento e encaminha denúncia ao procurador
A sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Três Cachoeiras, realizada na segunda-feira, 1º de dezembro, foi dominada por um único tema: a manobra da bancada do PP, que detém maioria na casa, 7 das 9 cadeiras, em defender o vereador e líder de governo Marcelo Paulart (PP), após a acusação feita por ele na semana anterior de que o MDB estaria “comprando votos” com parte de uma emenda parlamentar de R$ 250 mil.
A reação progressista veio forte, organizada e previsível. A “tropa de choque” do PP ocupou a tribuna para amenizar o impacto das declarações que geraram repercussão jurídica, política e moral. Colegas progressistas defenderam abertamente Paulart, buscando relativizar o ocorrido.
As justificativas mais repetidas foram: “Marcelo se equivocou e usou um termo pesado.”; “Foi um erro, mas não se pode atirar pedra. Lá em Brasília falam de tudo e não dá cassação”. Discursos nitidamente articulados: reconhecer o erro, mas diminuir sua gravidade; admitir o termo, mas evitar qualquer responsabilização.
Um parlamentar ainda apelou ao argumento da “liberdade de expressão”, confundindo novamente os limites desse direito constitucional com a já tão comentada imunidade parlamentar, que não cobre acusações criminosas sem prova — especialmente direcionadas a colegas de Câmara.
Ao usar a tribuna, Paulart responsabilizou a oposição por seu tropeço, lígitimo comportamento infantil. "O maior problema dessa fala e, eu admito que a gente se passa na hora de uma discussão mais acalorada, mas foi porque em todos os momentos que me pedem aparte eu sempre dou pra todo mundo, porque acredito que quando se dá aparte na tribuna, se fala e se constroi com a oportunidade para que o assunto possa ser melhor discutido. Foi numa dessas apartes que aconteceu. Falar sobre compra de voto foi muito forte, talvez dentro da emoção, porém diante de todo aquele exposto de uma emenda de 30mil pra hora máquina. Como se eu pudesse solicitar, dos 250mil que conquistei pra saúde, 50mil pra exames de endoscopia. Foi nesse sentido". O líder de governo confunde indicação, prerrogativa do vereador, por calúnia. "Nunca foi meu intuito de levantar algo assim, foi no calor da emoção. Por estar ao vivo é mais fácil se comprometer", complementou.
O clima era evidente: a bancada progressista buscou criar uma barreira de proteção ao líder de governo. A fala dominante foi política.
A perspectiva nos bastidores é de que ocorra indeferimento do pedido de criação da Comissão de Ética — instância que investigaria a denúncia e sugeriria a punição cabível, caso julgasse procedente. A tendência, portanto, é que nem advertência seja aplicada contra um comportamento político que já se arrasta há anos, mesmo sendo Paulart um vereador em seu terceiro mandato. O sentimento de impunidade persiste pra quem acompanha e para o próprio parlamentar, pois a manobra reflete em 'passar a mão na cabeça' ou 'não vai dar nada'.
Fim do ano passado, o vereador apresentou projeto de lei na Câmara para suprimir quase 100m de rua consolidada, nos Mesquitas, para unificar área de terra de seus pais, onde o locatário desejava comprar mas a existência da rua diminuía o valor da negociação. O parlamentar é um dos herdeiros beneficiados com a venda que se concretizou posteriormente, no segundo semestre de 2025. Atentos, os moradores da referida rua apresentaram abaixo-assinado com mais de 50 assinaturas pedindo a retirada o projeto, o que foi feito de imediato pelo progressista. A responsabilização pela conduta, em fim de legislatura e pós eleição municipal, passou batida a quebra de decoro parlamentar.
Apesar da blindagem, presidente da Câmara segue o regimento
Em meio às tentativas de contenção política, um ponto chamou atenção: a presidente da Câmara, Gilcinara Pereira (PP), de primeiro mandato, demonstrou postura institucional ao seguir exatamente o que determina o Regimento Interno. Ela determinou a leitura formal da denúncia, e o encaminhamento do documento ao procurador jurídico da Casa, para emissão de parecer técnico.
Caso o regimento seja respeitado, o parecer jurídico deverá orientar pela abertura da Comissão de Ética, já que há previsão expressa no artigo 18 para investigar fatos que possam configurar quebra de decoro. A atitude da presidente contrasta com o movimento evidente de blindagem do PP.
O fato evidencia uma preocupação crescente na comunidade: o risco de que a força política se sobreponha ao dever institucional de apurar condutas graves.
A fala acusando colegas de “compra de votos” sem apresentar qualquer prova e, intenção de se beneficiar na tentativa de alterar lei municipal — não é um deslize comum. É uma imputação de crime. É uma quebra da liturgia do cargo. É um ataque à honra parlamentar.
E, quando o Parlamento tolera esse tipo de conduta, abre-se o perigoso precedente de que mandatos podem tudo, enquanto o regimento e a ética são relegados ao rodapé.